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Blog de xtama67
 


 

POST III

Na época que tive síndrome de pânico, médico nenhum acreditava nisso. Alias, eles não acreditavam nem em stress. Dá pra imaginar? E isso não faz muito tempo. Hoje, qualquer coisa que você tenha é stress, não é mesmo? Bem, naquela época não era assim. To falando de 1989. Minha primeira crise foi nessa época e eu nem mesmo sabia que estava em crise. Sentia apenas uma sensação muito ruim, que rodava minha cabeça, me deixava zonzo e com muito medo. O primeiro médico que procurei disse que minha saúde era perfeita. Ok, mas eu não me sentia bem. Procurei outro e recebi a mesma resposta. A essa altura do campeonato, meus pais já estavam achando que era frescura minha e a cada médico que procurava perdia ainda mais a confiança da minha família. Difícil explicar uma coisa que você não entende. E mais difícil ainda quando profissionais da saúde dizem que você não tem nada. Bem, o problema só foi piorando. Comecei a ter taquicardia e sensação de desmaio. Voltei no primeiro médico, que me atendeu de saco cheio. Meio sem saber o que fazer me receitou um relaxante muscular. Tomava o remédio e todos os músculos relaxavam de tal forma que eu não conseguia nem segurar o queixo. Ou seja, ficava sentado no sofá, de boca aberta, babando. O corpo estava relaxado, mas a cabeça continuava a milhão. Eu sentia que ia enlouquecer. É como se estivesse em outro mundo, numa outra dimensão, longe de todos e ninguém podia chegar onde eu estava. Ninguém nem mesmo podia ver ou compreender o que acontecia comigo. Nunca me senti tão sozinho. Pela primeira vez senti que era eu por mim. Ninguém podia me ajudar. Mas é difícil se ajudar quando a ferramenta que você precisa – o celebro - é justamente a que está doente. Nessa época o que acontecia na minha cabeça era mais ou menos assim: 1) eu não entendia o que estava acontecendo, 2) eu não aceitava o que estava acontecendo, 3) Por que tinha que acontecer comigo?, 4) Eu estou ficando louco, 5) Eu estou sozinho, 6) Ninguém sabe o que eu tenho, 7) Eu tenho muito medo.



Escrito por xtama67 às 12h02
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POST II

1983, estou com 17 anos, no primeiro ano do colegial. Escola Culto a Ciência, em Campinas-SP. Escola austera, professores ídem. Naquele tempo respeitávamos os professores, mais por mêdo do que por admiração. Em um dia nada especial entra na sala de aula um homem magrelo, barba cerrada e rosto fechado, porém simpático. Ele se apresenta como um psicólogo e diz que a escola está fazendo um teste, colocando em sala de aula um psicólogo. Teríamos uma aula por semana com ele durante o resto do ano. Diz que a aula não é obrigatória e quem quisesse poderia sair da sala, ir para a cantina ou fazer qualquer outra coisa. Um terço da sala saiu, eu fiquei com o resto da turma. Estava curioso, afinal, não era comum um professor agir assim naquela época. A aula era diferente de tudo que eu poderia ter imaginado. O Djair (psicólogo) falou sobre a psicologia e nos deu algumas dinâmicas em grupo. Aquilo tudo era muito divertido. Em seu terceiro dia de aula, o Djair contava com todos os alunos em sala. Foi meu primeiro contato com a psicologia. E se eu não estudasse no Culto a Ciência naquela época, se a escola não tivesse feito o tal teste, se o Djair não fosse o psicólogo convidado para dar aula, provavelmente eu não estaria aqui digitando nesse blog. As vezes me surpreendo como as coisas acontecem na vida e como alguns encontros mudam-na completamente. Depois desse ano não tivemos mais aulas de psicologia e meu próximo contato com o Djair foi somente três anos depois. Mas, antes de falarmos dele, pode ser interessante conhecer um pouco da minha vida nesse período pré-Djair.

Segundo ano do colegial, escola Culto a Ciência. Faço dois grandes amigos em sala de aula: Márcio e Gentil. O Márcio éra aquele cara meio gordinho, óculos no rosto redondo, cabelos lisos, finos e curtos. Usava uma calça pula-brejo (curta) e camisa social. Apesar da aparência nerd, sua personalidade não era assim. Destacava-se pela simpatia e risada longa e gostosa. O Gentil era estranho, pelo menos a primeira vista. A primeira vez que o ví em sala de aula cheguei a pensar que era meu pai. Apesar de ser somente um ano mais velho do que eu, tinha aspecto de ser bem mais velho. Alto, encorpado, cabelos curtos, finos e ralos, meio desengonçado. Jeitão de italiano, chamava a atenção, principalmente, pela quantidade de pelos que tinha no corpo. Eu os achava muito estranhos sem que me desse conta da minha própria estranheza. Magrelo, cabeludo (cabelo todo em pé e desarrumado), usava um óculos de grau marrom, tipo rayban, quebrado no meio com um esparadrapo branco segurando as duas partes. A empatia foi imediata e formamos um dos trios mais estranhos da escola.

Naquela época, na hora do intervalo, jogava-se voley na cantina da escola. A estrutura do teto da cantina era de madeira e uma das ripas servia de rede para o jogo. É claro que jogavam os mais populares e nós não nos encaixavamos nessa turma. Bem, e o que é comum fazer quando nos deparamos com um problema que não gostamos de ter? Fugir é a solução mais rápida. E é exatamente isso que fazíamos. Passavamos o tempo procurando justificativas que, de alguma forma, condenasse os traços e as atitudes que faziam de alguns "pessoas populares". No decorrer do segunda ano do colegial, eu, Márcio e Gentil solidificamos nossa amizade. Apesar do encontro não parecer sadio, a amizade que desenvolvemos foi verdadeira e pela primeira vez pude experimentar o sentimento de ter um amigo de verdade, na verdade, dois amigos.



Escrito por xtama67 às 12h06
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Meu nome é Elyson, tenho 38 anos e já tive síndrome do pânico. Isso foi a um bom tempo atrás. Na época não se conhecia muito bem essa doença, não existiam tratamentos específicos, eram poucos os remédios e seus efeitos colaterais eram, por vezes, pior que os sintomas da doença. A idéia deste blog é contar como me virei com esse problema, as dificuldades que passei, tudo o que tentei e como saí dela. Vale lembrar que a visão aqui é pessoal. Não sou médico, psicólogo ou psiquiatra. Fui vítima dessa doença e espero conseguir passar a visão dela de dentro pra fora. A visão de quem viveu por 5 longos anos com a síndrome de pânico.

As causas que levam a essa doença podem ser muitas. A forma como cada um reage aos seus sintomas também podem ser muitas. Mas os sintomas em si são parecidos. Vou descrever os meus: mal estar geral, pressão interna na cabeça e no fundo dos olhos, suor nas mãos, uma onda de calor que sobe pelo corpo, sensação de desmaio, respiração alterada, respiração curta (como se o ar não enchesse completamente o pulmão), ansiedade, sensação de perigo, sensação de morte eminente, taquicardia, partes do corpo que repuxam ou tremem sozinhas (ex: pálpebras, cantos da boca, sobrancelhas, narinas entre outros) e visão turva. Acredito que esses são os principais e os que mais incomodam.

Se você tem síndrome do pânico e está lendo esse blog não se assuste. Saiba que essas sensações duram pouco tempo e podem ser controladas. O maior problema é que, quando as sentimos, ficamos ainda mais ansiosos e acabamos por aumentar e prolongar seu efeito. Você, agora, deve estar perguntando: "ok, e como e faço pra controlar essa droga toda!". Bem, a primeira coisa a saber é que não existe uma fórmula pronta, cada um tem que desenvolver a sua. E eu espero poder ajudar nesse ponto. Porém, esse não é o primeiro passo. Antes de tudo é preciso compreender uma série de outras coisas que vão ajudar a criar uma barreira eficiente contra essas sensações negativas. No momento é importante que você saiba que síndrome do pânico tem cura sim e que é possível viver uma vida normal sem a necessidade de passar o resto da vida na dependência de medicamentos.

Tentarei seguir uma ordem cronológica nesse blog, mas isso não é uma premissa. Não planejei a sua escrita e nem muito menos a sua estrutura. A cada dia colocarei um post que vai depender do post anterior e/ou dos comentários. Por vezes contarei momentos de minha vida que ajudarão a entender o contexto, por outras escreverei sobre os tratamentos que fiz e minhas percepções sobre cada um e ainda, como lido com a doença hoje em dia. Espero com esse blog poder contribuir, de alguma forma, com essa doença que hoje em dia cresce como se fosse uma epidemia de gripe.



Escrito por xtama67 às 10h36
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